A História de Orfeu
Orfeu, filho de Apolo, deus do Olimpo, e de Calíope, uma das nove musas da mitologia grega. Apaixonado pelos mais intensos sentimentos, traduzia cada pedaço da tua vida em poesia e nas mais belas canções. Pudera essas canções alcançar as profundezas da alma, fazer com que as mais belas sereias se calem e com que até mesmo o mais surdo dos surdos se dispusesse a chorar, ao sentir o agudo arpejo de sua Lira pulsar de encontro ao coração.
Pois foi este dom que fez de Orfeu um aventureiro, à sair por aí e acalmar o mundo com suas composições, à deixar registrado em tão bela obra, aquilo que qualquer um podia ver, mas somente ele podia enxergar, e, através de sua obra, traduzir em verso e refrão, tudo aquilo de mais intraduzível que pudesse existir. E com isso, conquistava mulheres, quaisquer que fossem, de todos os tipos, em todo lugar… Mas não se contentava. Orfeu foi se apaixonar justo por ela, Eurídice, a ninfa mais bela, aquela tão bela quanto suas canções, tão bela quanto o ressoar daquilo que ainda continha em seu coração.
Foi aí que se apaixonaram, que se deram um ao outro e dispuseram-se a viver a mais intensa das paixões, mergulhado em um amor tão grande, que quase nem Orfeu pudera compreender. E assim viveram, necessitando apenas um do outro, como um casal apaixonado que não se preocupa com o amanhã, mesmo com a incerteza do agora, com a certeza do amor, mesmo que isso um dia vire dor. Pois mesmo que doa, poderiam se encontrar, se curar… e se amar, até o fim.
No entanto, não foi bem o que aconteceu. Eis que num belo dia, como qualquer outro dia, um moço se aproximou de Eurídice e a desejou. A quis como até mesmo Orfeu queria, mas não sentia nem meio terço daquilo que Orfeu sentia. E por não pode-la ter, decidiu á tirar dos braços de Orfeu, custasse o que custar. Até que esse dia chegou, e sem mais nem menos, deu um fim à vida de Eurídice.
Ao homem nada mais restou, afinal até mesmo os Deuses encantavam-se com as canções de Orfeu, e estavam estes, ao lado dele. Mas ele já não tocava mais como antes. Agora, toda a alegria e calmaria transformaram-se em tristeza, e até mesmo a mais bela melodia, ressoava com um ar gélido de escuridão, a escuridão do submundo, que é onde a amada se encontrava, perdida em meio aos castigos e tormentas dos enviados de Hades, longe de seu amor, longe de sua vida, perdida na mais repleta loucura, em que também ele se encontrava. Os dois se perdiam em sentimentos ruins, e ainda que em sincronia, não podiam se comunicar. Foi aí então, no ponto mais alto da dor, no buraco mais fundo da ferida, da perda, que Orfeu deixou de hesitar, e foi então, em busca de sua amada.
Pelo mais puro amor, entrou à dentro o submundo, e tocou para as bestas dormirem. Enfrentou tudo que jamais nem o mais valente cavaleiro tivera enfrentado - e vencido -, foi somente com sua Lira e todo o amor no coração. E assim fez até mesmo Hades chorar lágrimas de ferro que jamais seriam vistas novamente, e assim conseguiu permissão pra ir à busca de sua amada para leva-la de volta ao seu mundo, ao mundo ao qual eles, apenas juntos, poderiam pertencer.
Porém, uma única condição foi disposta: durante todo o caminho até a saída do submundo, em momento algum Orfeu poderia olhar para ela
Pois bem, seguiram caminho pelo rio enquanto ele tocava sua Lira calmamente… Até que, em um momento de distração, prestes à saírem de lá… Eurídice chama por Orfeu, e ele, sem controlar seus instintos que o levavam à seguir aquela que era a mais bela das vozes, olhou para sua amada, e ela simplesmente voltou à sua forma espectral e… se foi.
E por mais uma vez Orfeu enxergou-se distante de sua amada e de tudo aquilo que quisera ter para si e tudo aquilo que necessitava.
Quisera ser o ar, pra viajar por aí e ao menos ter a chance de um dia te encontrar, tocar teus pulmões e pulsar em tuas veias… Mas ela já não vivia mais. Restava à ele cantar, e compor, e ensinar aos outros sobre o amor e o amar, sobre o fazer qualquer coisa por alguém, sobre tudo aquilo que ele queria poder viver, mas que sem ela, não faria sentido… E foi aí, que, indignadas pela situação de Orfeu, e tomadas pela inveja, que as Mênades (mulheres que por ali viviam e presenciaram toda a história) decidiram mata-lo. E assim o fizeram.
Esquartejaram Orfeu e jogaram seu corpo num rio… Mas, para seu espanto, ainda morto, puderam ouvir sua voz insistentemente clamar por Eurídice.
Porém foi aí, com sua morte, que ele pode finalmente encontrar sua amada, e ao seu lado viver.
As Mênades? De pouco importa seu “triste” destino nas mãos dos deuses do Olimpo. O que importa é que enfim, Orfeu e Eurídice Puderam se encontrar, puderam viver seu amor sem limites, sem clausuras e sem interrupções… Pois mesmo lá, no lugar onde ninguém jamais quisera estar, puderam eles viver um com o outro. E isso bastava nesse amor que nem mesmo o tempo e nem a morte puderam derrubar, pois só mesmo lá, Orfeu pudera tocar, e cantar, e declamar tudo aquilo de mais belo que podia sentir, e nem mesmo a escuridão do submundo pudera fazer a estrela desse amor deixar de brilhar, jamais.


